A guerra santa<br>das classes ricas

Jorge Messias
Nesta fase crítica da luta de classes ninguém se atreve já a afirmar que a presente crise mundial é um simples acidente de percurso, como tantos outros do passado. O panorama social é devastador. Por todo o mundo as grandes empresas abrem falência ou reduzem drasticamente a produção. Em último transe recorrem aos dinheiros públicos do Estado e em muitos casos o patronato limita os prejuízos despedindo maciçamente ou «investindo»? nos mercados financeiros clandestinos. Os direitos dos trabalhadores são contestados pelos patrões que agem arbitrária e impunemente desprezando as leis, perante a compreensão cúmplice do poder capitalista que governa. Os dias que aí vêm serão muito duros. Vão ser tempos de agudização extrema das lutas de classe.
Se os noticiários nos informam que, em todo o mundo, os despedimentos são actualmente da ordem diária das dezenas de milhares, também relatam que os grupos económicos responsáveis pelo aumento galopante das taxas de desemprego não cessam de comprar e de vender, engordando os lucros à custa da diminuição dos encargos de exploração, do recurso aos fundos estatais de emergência, dos apoios públicos e privados e da prática dos financiamentos «sujos» que se obtêm nos paraísos fiscais e no mundo do crime.
Assim vão as coisas...

Os caminhos da santidade

Perante estes cenários apocalípticos o Vaticano destaca-se pela sua mudez.
Aguarda, talvez, o Milagre de Davos ou que Cristo se revele no Tibete ao primo de José Sócrates... É o mutismo enganador de uma Hierarquia que se desdobra em esforços para ocultar as dimensões colossais dos seus tesouros. Ainda recentemente, certamente por lapso, o prof. Adriano Moreira, referiu-se pela calada a uma certa «Teologia de Mercado» cuja existência se disfarça mas que é real e serve de fio condutor às tácticas e estratégias comuns ao capital e à igreja. Não é por acaso que a Igreja vira as costas à promoção capitalista da miséria e não ergue um só dedo para denunciar os crimes mais que evidentes do grande capital financeiro. Mais, ainda: o Vaticano defende ferozmente as suas posições entre os mais ricos e gere segundo os princípios capitalistas os seus fenomenais interesses que procura, incessantemente, valorizar. Em Portugal, tudo aponta agora no sentido de estarmos na eminência de um novo golpe do capital eclesiástico.
O essencial dessa operação descreve-se brevemente.
O panorama bancário ibérico encontra-se em vertiginoso processo de concentração, através de operações que a própria crise acaba por facilitar. Por um lado, há múltiplos grupos financeiros - sobretudo portugueses - que se abeiram do colapso. E, como sempre, uma derrocada financeira arrasta a curto prazo o desmantelamento dos mercados e o esvaziamento do poder político. É, pois, necessário dispor as peças no tabuleiro de forma a aproveitar as convulsões capitalistas para constituir, no plano financeiro, poderosas formações que simultaneamente controlem o dinheiro e conquistem o poder. O que exige a fusão dos actuais grandes grupos financeiros.
Sabe-se que uma dessas operações gigantescas prepara, numa fase imediata, a entrada de volumosos investimentos do grupo espanhol Bilbao y Vizcaya-BBV no capital social do Banco Comercial Português-BCP. O projecto encontra-se em fase final de instalação e foi revisto por Sócrates e Zapatero no encontro que recentemente os juntou. Para que melhor se compreenda o gigantismo desta operação, importa recorrer, muito de passagem, ao historial destes dois grupos bancários com grande implantação no mundo financeiro.
Ambas as holdings (BBV e BCP) provêm duma reforma radical do sistema financeiro católico espanhol iniciada logo nos primeiros anos de 1900. As antigas colónias espanholas tinham-se tornado independentes e a Igreja arrecadara uma imensa fortuna com a venda dos latifúndios que possuía nessas regiões e pertenciam às ordens religiosas. Entre os numerosos bancos que então surgiram contavam-se o Bilbao e o Vyzcaya que mais tarde se fundiram dando origem ao BBV. Percurso idêntico foi seguido pelo Banco Popular Espanhol cuja expansão veio a dar origem ao BCP português. Ao longo dos anos estas formações financeiras não cessaram de crescer, conquistaram os principais mercados e seguiram invariavelmente uma conduta que continuam a praticar: os seus quadros permutam entre os bancos do grupo, saem das holdings próprias para as suas rivais de onde, mais tarde, regressam e assessoram os projectos públicos do Estado que permanentemente é infiltrado pelos interesses privados.
É justamente isto que está a acontecer em Portugal.


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